03 agosto, 2007

O pica

Leva uma bolsa de couro a tiracolo e um boné. Pela forma como vai sem se agarrar, percebe-se que tem pés de marinheiro e o corpo calejado de pára-arrancas. Fala com quem o quiser ouvir, mas ninguém o quer ouvir. Também quer ouvir os passageiros, mas os passageiros não querem falar. Eu ouvi.
Mesmo de rosto voltado para a janela, o homem sabia que eu o iria ouvir. Deixou o seu posto, de pé, à porta traseira do autocarro (não um de dois andares, mas uma destas novas lagartixas), e veio sentar-se a meu lado. E então falou-me sobre as janelas do autocarro, as portas do autocarro e muitos outros pormenores técnicos. Explicou-me com argumentos e contra-argumentos num monólogo aceso o defeito dos novos autocarros: a perfeição. Conhecia muito bem os antigos – as madeiras que rangem, os couros gastos, os barulhos caprichosos do motor, o tecto demasiado baixo, a porta ameaçadora, sempre aberta, sobretudo aos corajosos -: sim, os routemasters eram imperfeitos, mas cheios de personalidade. Ouvia-se, falava-se – não só entre passageiros mas com o próprio autocarro. O tradutor, ou talvez seja melhor dizer, o intermediário do diálogo, era o pica. Confessou-me que tinha saudade. Mas nunca disse que tinha trabalhado num. Não era preciso.
Quando me levantei, o homem veio atrás de mim, saiu mesmo do autocarro e acompanhou-me a uns respeitosos metros de distância pelo passeio da High Street. Não por maldade, mas por instinto, um impulso. Como um cão vadio que segue quem lhe dá comida. A minha esmola tinha sido um sorriso.
Possivelmente há muito tempo que ninguém o olhava nos olhos. Normalmente, os passageiros desviam os olhos do homem que ocupa os dias a andar de autocarro.

26 julho, 2007

horizonte

Em Londres nunca se vê o horizonte. Foi por isso que quando me deparei pela primeira vez com os homens de pedra, feitos (à sua imagem) por Antony Gormley, no topo dos edifícios, fiquei cheia de inveja.
Mais tarde voltei de propósito ao South Bank e a Waterloo, e andei de pescoço esticado a inspeccionar cada terraço, a examinar cada figura - mãos alinhadas com o corpo, a cabeça numa perpendicular perfeita, as costas a aplacar as nuvens -, a reconstituir cada olhar de pedra. Desta vez, fiquei com pena dos homens de pedra. Em Londres, não faz falta ver o horizonte.

18 julho, 2007

O gato

O gato é quase tão grande como a raposa. O gato e a raposa nunca visitam o jardim ao mesmo tempo.

11 julho, 2007

Peter O'Toole

Vi um homem extraordinariamente parecido ao Peter O'Toole. A mesma magreza, a mesma postura, o mesmo tom, as mesmas maçãs do rosto, os mesmos olhos azuis, mas cinzentos.
Saí atrás dele na plataforma, fui atrás dele nas escadas rolantes, segui-o por uma das seis saídas. Calçava sapatos de vela, vestia roupa que também seria adequada para um veleiro, e levava na mão uma mala de computador preta simples. Peter O'Toole podia vestir-se assim. Peter O'Toole até podia andar de metro.
Mas não era Peter O'Toole, e eu sabia. Por isso o segui: por não ser Peter O'Toole mas um homem normal. Perdi-o no topo das escadas, contra o céu.

05 julho, 2007

Primeira bomba em Londres

Uma pessoa nunca se perde sem razão, e eu andava perdida bem perto de casa. Até que dei com o Nevill Arms e uma placa azul - “primeira bomba em Londres”, li. E durante algum tempo, parada em frente ao pub fechado, esperei ver um zeppelin aparecer no céu.
Veio ameaçador – também belo até ser vergonhoso –, o próprio céu a mover-se.
92 anos, um mês e alguns dias depois, a imagem veio sem som. Tão perto da bomba que não se ouve rebentar.

28 junho, 2007

Boas vindas

Ela não faz nada. Eu também não. Olhamo-nos através do vidro, cada uma medindo o medo da outra. Ela dá uns passos atrás. Eu também. E desviamos o olhar, cada uma decidindo aceitar a outra. Ela finge ignorar-me enquanto tomo o pequeno-almoço. Eu finjo não observá-la a explorar o meu jardim.
Este é o primeiro hábito que ganho no regresso a Londres - e na casa nova –: ao acordar, abeirar-me do jardim e esperar pela raposa.

12 junho, 2007

de viagem

Peço desculpa pela falta de actualização das últimas semanas, mas tenho estado fora do Reino Unido e com pouco acesso à internet. O bay window voltará ao normal daqui a duas semanas, com o meu regresso a Londres.

04 junho, 2007

O pássaro cego

Para descobrir isto houve quem tenha feito estudos, descrições, experiências, manipulações, até provarem – na rádio, na BBC –: este pássaro que está a ouvir, explicava o locutor, é um homem, e este homem que ouve cantar, continuava, é, na realidade, um pássaro.
Eu sabia o mesmo (e com muito menos trabalho). Só tive que descer onde descem por vezes algumas pombas, mas raras. É no único lugar sem pássaros que o homem pode tomar o lugar dos pássaros. Tenho a impressão que se lhe perguntassem o que és, o cego do metro responderia pássaro. Só assim, esquecendo que é homem, poderia continuar com o seu assobio, apagado intermitentemente pelos comboios quando chegam, quando partem.

15 maio, 2007

Pequeno-almoço

Acho que vi isto num filme. Devo ter visto num filme. Preferia ter visto num filme. Já não sei se vi num filme ou se aconteceu mesmo.
Tomava o pequeno-almoço em Covent Garden e na mesa à minha frente sentou-se um homem com a cara fechada – esse rosto caricaturalmente sério com que os actores de cinema se mascaram para serem alguns homens: homens que fazem parte de grupos criminosos, homens criminosos porque fazem parte de um grupo, homens que treinaram a memória para esquecer; homens que se trancaram, e nessa altura, desaprenderam a sorrir. Nem para a empregada bonita, de um bonito francês.
O homem mete a mão ao bolso interior do casaco de cabedal. Fecho os olhos. Quando os abro, o homem continua lá. Toda a gente continua no café francês. A empregada bonita passa. Outros clientes entram, sentam-se. Outros saem. Ninguém parece reparar no homem. Nem agora que deita ameaçadoramente as cartas sobre a mesa. As cartas escorrem-lhe vermelhas da mão.
Olha em frente, calha ser a direcção da porta, mas é difícil dizer se espera ver entrar alguém em particular. O tempo passa por ele – nas mãos, não nos olhos – e à sua frente continua aquele espaço vazio, até à barreira das costas seguintes, do homem seguinte, ali a metros mas que nada tem a ver com o homem atrás de si.
Não olha para as mãos, as mãos trabalham melhor quando não são vigiadas. O homem joga bem, joga de muito hábito. Joga melhor contra si próprio, mais habitual do que isso não há.
Roda as cartas com a rapidez de uma volta de canhão.
Parte. Dá. O homem tira uma carta. Volta-a ao contrário.
Não sei se morreu ali naquele momento – não vi que carta lhe saiu, e mesmo que visse, não adiantaria, só ele pode interpretar a própria morte. E quanto ao rosto, nem alívio nem medo.
O homem volta a pôr a carta no baralho e afasta-o. Chegou o croissant e o cappuccino.E o homem toma o seu pequeno-almoço.

11 maio, 2007

Chuva I

“Tu pareces infeliz e eu estou infeliz”, disse L. finalmente. Desde que nos tínhamos sentado na esplanada, chovia. Quem passasse pelo passeio em passo de chuva, pensaria que éramos impermeáveis. Nada mais errado: estávamos até encharcados por dentro.
O problema não era sequer sentir a frieza da chuva na pele do rosto e das mãos. A nossa infelicidade era toda interior, uma desilusão. Uma portuguesa e um sul-africano, tínhamos que admitir que tínhamos sido enganados. Todo o mês passado tinha sido uma mentira: afinal, ainda não é Verão.