A irmã adolescente agarra-o pelo braço com imensa doçura mas firmeza, como se nada fosse mais importante do que mudar o irmão de banco. E o irmão devolve-lhe a imensa doçura e segue-a. Depois, senta-se mais crescido do que o corpo, e olha fixamente pela janela durante toda a viagem, pensativamente adulto.
Quis tanto saber o que pensa. Pensei em aproximar-me, fazer uma pergunta casual, a seguir inquirir o nome, small talk... Hesitei o resto da viagem. Acabei por me deixar ficar sentada, silenciosa, simplesmente observando.
Não foi por medo do ridículo ou falta de coragem. Foi por perceber que o mais importante é o desejo em si de ler nos olhos (e escrever na pele). Perceber que cada pessoa é uma história a cada momento, até uma criança.
Por alguma razão misteriosa, em Londres é-me mais fácil escutar essas histórias. É bom estar de volta.
17 janeiro, 2008
11 outubro, 2007
Os outros
Havia um post com o qual gostava de ter começado o Bay Window. Fui depois fazendo várias tentativas ao longo do tempo de vida deste blogue e nunca consegui escrever esse post.
Agora, a olhar por uma janela que não é em baía para uma paisagem tropical, penso em Londres e percebo que esse post nunca poderia ter sido escrito.
Todo o tempo estava a tentar dizer que Londres é a cidade do outro, uma cidade de encontro com os outros, talvez mesmo de encontro com a própria ideia de alteridade (o post começava até com uma citação do Ryszard Kapuscinski, mestre da “otherness”); e descubro que não posso dizer isto. Em Londres não há um encontro com “os outros”, porque em Londres, os outros somos nós.
Estou a trabalhar em encontros com outros “outros”, bem longe de Londres, noutro continente, noutro hemisfério. Tenho pena de ter que deixar de escrever no Bay Window até ao final do ano. Obrigado a todos os que foram visitando o Bay Window.
O BAY WINDOW VOLTA EM JANEIRO em www.bay-window.blogspot.com
Agora, a olhar por uma janela que não é em baía para uma paisagem tropical, penso em Londres e percebo que esse post nunca poderia ter sido escrito.
Todo o tempo estava a tentar dizer que Londres é a cidade do outro, uma cidade de encontro com os outros, talvez mesmo de encontro com a própria ideia de alteridade (o post começava até com uma citação do Ryszard Kapuscinski, mestre da “otherness”); e descubro que não posso dizer isto. Em Londres não há um encontro com “os outros”, porque em Londres, os outros somos nós.
Estou a trabalhar em encontros com outros “outros”, bem longe de Londres, noutro continente, noutro hemisfério. Tenho pena de ter que deixar de escrever no Bay Window até ao final do ano. Obrigado a todos os que foram visitando o Bay Window.
O BAY WINDOW VOLTA EM JANEIRO em www.bay-window.blogspot.com
01 outubro, 2007
British Library - O leitor
Tem pedaços de corda por atacadores, um blazer de Verão por impermeável de Inverno, e um saco com rodinhas por casa.
Tem mais ou menos 40 anos.
Tem mãos de escritor que são aquelas que as pessoas costumam chamar erradamente de mãos de pianista. A partir de certa idade, nas mãos não se lê o futuro, mas aquilo que poderia ter sido o futuro.
Tem mais ou menos 40 anos.
Tem mãos de escritor que são aquelas que as pessoas costumam chamar erradamente de mãos de pianista. A partir de certa idade, nas mãos não se lê o futuro, mas aquilo que poderia ter sido o futuro.
28 setembro, 2007
Actividade ilícita
“Faltam 15 minutos para encerrar.” P. fecha o computador e dirige-se à casa de banho da biblioteca. Retoque de maquilhagem, mudança de sapatos, blazer, P. sai da casa de banho uma executiva. Chegará a casa vestida como quem veio do escritório onde é suposto trabalhar como consultora. Alguns jovens têm que esconder dos pais que fumam, bebem, tomam drogas, dormem com alguém do sexo oposto, dormem com alguém do mesmo sexo... P. esconde que escreve.
25 setembro, 2007
BL
Sabem aquele desejo de dar um grito num sítio onde não se pode sequer falar alto? Não fui eu, não tive coragem, mas um casal acabou de descer as escadas da British Library aos berros. Quando chegaram à saída iam tão satisfeitos que o segurança não conseguiu fazer mais nada a não ser rir. Por momentos, pensei que também o segurança ia desatar aos berros. Ainda tive esperança que se pegasse.
21 setembro, 2007
Special People
Talvez seja tempo de começar a ler jornais desportivos e tablóides, mas até aqui ainda não ganhei o hábito, e se calhar por isso, o conceito de um José Mourinho odiado pelos ingleses – como no retrato do P2 de hoje - é-me absolutamente estranho.
Não creio que exibir sucessos (ou até vangloriar-se) seja “pena capital” na jurisdição britânica, pelo contrário. A característica que mais me tem custado a entender na mentalidade anglo-saxónica é a falta de humildade, porque isto é extraordináriamente estrangeiro para um português.
Um português em Londres é obrigado a viver com o Mourinho – a associação Português=Mourinho ultrapassa todas as outras, do vinho do Porto ao Algarve. E é obrigado a ver-se no Mourinho.
E o único pedaço verdadeiramente feliz do espelho é a arrogância. Como se o Mourinho representasse a nossa possibilidade de, noutro país, viver esquecidos do nosso destino de humildade.
Não creio que exibir sucessos (ou até vangloriar-se) seja “pena capital” na jurisdição britânica, pelo contrário. A característica que mais me tem custado a entender na mentalidade anglo-saxónica é a falta de humildade, porque isto é extraordináriamente estrangeiro para um português.
Um português em Londres é obrigado a viver com o Mourinho – a associação Português=Mourinho ultrapassa todas as outras, do vinho do Porto ao Algarve. E é obrigado a ver-se no Mourinho.
E o único pedaço verdadeiramente feliz do espelho é a arrogância. Como se o Mourinho representasse a nossa possibilidade de, noutro país, viver esquecidos do nosso destino de humildade.
14 setembro, 2007
Almoço no café
Às 12h vêm as mulheres com filhos – nas mãos, no colo, na barriga – e vão-se.
Às 13h vêm as mulheres sem filhos – estão ainda mais carregadas – e vão-se.
Às 14h vêm os homens – um telemóvel, um jornal, um livro, qualquer coisa para não comer sozinho - e vão-se.
Às 15h até as meninas ao balcão estão ausentes.
Às 13h vêm as mulheres sem filhos – estão ainda mais carregadas – e vão-se.
Às 14h vêm os homens – um telemóvel, um jornal, um livro, qualquer coisa para não comer sozinho - e vão-se.
Às 15h até as meninas ao balcão estão ausentes.
12 setembro, 2007
149 – a leitora
Nunca tinha visto ninguém de olhos bem abertos com a expressão de quem os tem fechados. Tenho a certeza que lê, simplesmente não aquilo que está escrito.
29 agosto, 2007
149 – o ginasta
Cospe nas mãos – primeiro uma, depois outra – e esfrega-as uma nas outra. Olha em redor e fecha os olhos. Levanta os braços e volta a baixá-los. Junta os pés. Respira fundo. De expressão concentrada, ainda de olhos fechados, levanta os braços lentamente até que as mão sentem as pegas. Agarra-se e eleva-se. Por instantes, fica absolutamente imóvel no ar, antes das pernas começarem a curva para si próprio. Com o corpo fechado como um bicho de conta, roda até prefazer 360 perfeitos. Chega ao chão suavemente – os pés ainda juntos – pousando sem hesitações. Sobe a cabeça, o tronco, até as costas ficarem direitas. Respira fundo. Levanta os braços e volta a baixá-los e abre os olhos.
No autocarro, ninguém bate palmas.
No autocarro, ninguém bate palmas.
22 agosto, 2007
149
A crianca é igual à mãe. Vai sentada tal e qual: costas curvadas por uma carga invisível; olhar em frente mas vago para que não se direccione a alguém específico; as mãos espremidas uma na outra sobre o colo.
A crianca está prestes a chorar, e também nisso é igual a mãe: contém um choro adulto.
A crianca está prestes a chorar, e também nisso é igual a mãe: contém um choro adulto.
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