27 março, 2007

Água mole em pedra dura..., uma não-crónica da Irlanda do Norte

Tens uma ideia?, telefonou-me ontem uma editora do jornal PÚBLICO. Era uma pergunta, mas eu tomei-a como uma afirmação: de certeza que tens uma ideia. Qual é a tua ideia?, acho que era essa a pergunta que ela queria fazer. Afinal, eu tinha ido cinco dias a Belfast escrever sobre as eleições, na primeira semana de Março, e desde aí, ainda não tinha parado de escrever sobre a Irlanda do Norte – de certeza que tens uma ideia, Susana. De certeza, tens algo para dizer no dia em que aconteceu o que mais se desejava, no dia em que Ian Paisley e Gerry Adams se sentaram à mesma mesa, no dia em que falaram um com o outro.
Já te ligo, disse-lhe em pânico.
Fui folhear os três blocos de notas que tinha preenchido em Belfast: fiz listas das citações inesquecíveis que entretanto tinha esquecido, dos pensamentos dignos de serem chamados assim, dos nomes das pessoas a quem podia voltar a telefonar para ter uma reacção.
Depois, fui fazer outra lista para confrontar com as primeiras – das histórias que já tinha escrito para o PÚBLICO sobre a Irlanda do Norte: o que é que eu teria deixado de fora, o que é que ainda podia aproveitar?
Listas sabidinhas na cabeça, não só continuava sem saber o que escrever, como percebi que o conteúdo daquelas listas ia todo dar ao mesmo.
Enquanto revia trabalho por medo de me repetir, concluia que, apesar dos títulos e temas diferentes, estive sempre a repetir-me, a dizer a mesma coisa: as pessoas da Irlanda do Norte querem andar com as suas vidas para a frente.
E porque é que agora – que ontem se confirmou que o governo de coligação Sinn Féin/DUP arranca, embora com arranque adiado para início de Maio – haveria de dizer diferente?
Foi essa a mensagem da votação nas eleições, é esse o significado do encontro histórico de ontem, e é isso que os políticos irão fazer em governo autónomo – ajudar as pessoas a andar com as vidas para a frente.
Água mole em pedra dura... – podia ser este o ditado da Irlanda do Norte. Tudo tem que ser repetido, repetido até entrar. Portanto, só posso continuar a escrever o mesmo: as pessoas da Irlanda do Norte querem andar com as vidas para a frente.
Só há uma coisa que posso acrescentar: as pessoas da Irlanda do Norte merecem. Já tinha dito que os irlandeses são uma simpatia? Se calhar não disse, em tantas reportagens.
Cada vez que me perguntam como foi a Irlanda do Norte, não respondo com o trabalho correu bem ou a cidade é bonita. A primeira coisa que digo é: os irlandeses são uma simpatia.
Generosidade quer dizer dar mais do que aquilo que se pede. Os irlandeses do Norte deram-me muito mais do que as minhas perguntas pediam. Foram muito mais generosos comigo do que aquilo que eu fui com eles: nem sempre abrindo as minhas perguntas às respostas deles.
Quando fui para a Irlanda do Norte, ia cheia de ideias. Achava que sabia o que era preciso dizer, achava que sabia do conflito, do pós-conflito, que sabia tudo. As ideias deixei-as todas lá. Voltei vazia de ideias, sem saber coisa nenhuma.
Peço desculpa, mas não tenho nenhuma ideia. Seria preciso voltar a Belfast. A partir do dia de ontem, é preciso voltar, e começar o trabalho de novo, e então sim, talvez tivesse uma ideia, uma que fizesse justiça às pessoas da Irlanda do Norte.

4 comentários:

Anónimo disse...

"A moral do vento é outra,
e está toda no modo como ele toca na água:
faz o que tem a fazer e parte"

Gonçalo M Tavares

beijos pela janela, paulo

Anónimo disse...

O povo do Norte da Irelanda é um povo com uma esperança enorme que tudo corra bem. Apesar de parecerem à primeira vista decepcionados com o rumo da política.
Outra coisa que me admira neles é q o carpe diem está embrenhado neles, a alegria extravasa aos fins de semana. Uma vez o Ned disse-me que eles passaram por tanto no último século que Hoje os dias são uma riqueza enorme; apesar do Ned e outros terem familiares e amigos que foram mortos monstruosamente.
Nao há putro sítio como a Irlanda do Norte.

joana disse...

muito bem escrito, tambem ouvi dizer que os irlandeses sao assim. foi um gosto ler. beijinhos, joana

Anónimo disse...

Ainda bem que abriste esta janela para o Reino Unido. Já não era sem tempo.

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