25 abril, 2007

Procurar casa

O agente imobiliário ainda não tinha chegado. Sentei-me num banco. Nesse instante, as crianças desataram a correr como pombos espantados, e eu fiquei sozinha com o rio. Vi o ângulo perfeito com que os aviões levantam voo, na outra margem. Vi o barco que chegava, provavelmente o primeiro da hora de ponta – veio dos arranha-céus a Oeste; e volta para buscar mais pessoas aos arranha-céus. Vi que para Este ainda não há arranha-céus, mas as gruas já lá estão. Vi um barco digno do rio, um desses que desliza tão pesado tão impossível de navegar que só pode ser uma aparição. Foi nesse momento que as crianças voltaram, correndo para o barco, pousando no muro, a apontar.
Quando o agente imobiliário chegou, eu já tinha vivido na casa que ainda não me tinha mostrado. Tinha aberto as janelas, porque até pelas traseiras entrará o ar puro das águas. Tinha, todos os dias, caminhado pela abertura da paisagem até este banco. Já conhecia de cor o horário dos barcos-comboios (nunca entendi o passatempo de ver passar comboios, mas ver passar os barcos, ah, poderia tornar-me numa fanática). Já sabia que aos dias de semana o pedaço de jardim é vazio como o mar; e que só se preenche quando acaba a escola. Já tinha escrito muitos textos, pensado tantos outros, sentada no banco, entre a linha do horizonte marcada-fim e uma praça onde as crianças se metem dentro de estátuas ocas até ao dia em que forem grandes, grandes demais para caberem inteiras dentro das brincadeiras.
Fui-me embora de comboio e não de barco; deixando para trás uma casa, e o agente imobiliário, de telefone e chave na mão, um pouco desconcertado.

1 comentário:

Hugo Besteiro disse...

Parece-me triste que a coisa mais importante que um português tenha para falar no 25 de Abril seja sobre agentes imobiliários.